Seis da manhã, ela tinha acabado de acordar, costumava acordar cedo, já era um hábito. Como todos os outros dias, ela tinha acordado com aquele gosto amargo na boca, não aquele que você costuma sentir quando come algo ruim ou quando toma um remédio, não, era diferente, era aquele tipo de gosto amargo que você sente quando acaba de chorar, aquele gosto amargo que permanece na boca como uma maldição, que não te deixa em paz até você sorrir novamente. Infelizmente havia muito tempo que ela não sorria.
Ela se levantou da cama torcendo pra que aquele dia fosse melhor dos os que ela havia tendo nos últimos meses… Ou anos… Seus cortes da noite passada ainda estavam frescos, mas já não doíam como antes, ela não sabia bem o por quê. Talvez estivesse acostumada com a dor, talvez suas terminações nervosas do lado da coxa não funcionassem mais, talvez ela teria que achar um outro lugar para fazer isso. Um outro lugar que ninguém visse, um que ninguém pudesse descobrir a menos que a visse nua.
Eram esses seus pensamentos enquanto ela caminhava no curto percurso entre sua cama e a mesa, na cozinha, lá ela saberia que os encontrariam. Sim, a família feliz, digna de um comercial de margarina ou de café, ultimamente ela não estava ligando muito pra comerciais “felizes". Talvez ela devesse chamar aquela família de sua família, não podia mentir: amava sua mãe e sua irmã, eram tudo o que ela ainda tinha, eram as únicas que ainda não tinham a deixado, apesar de não saberem sobre suas lâminas, cortes e lágrimas na madrugada, talvez por não saberem elas não tinham a abandonado ainda. Bom, também havia “ele": o homem com quem sua mãe havia se casado. Muitas pessoas achavam que ela não gostava dele por ciúmes da mãe, ou por ele estar “no lugar" de seu pai. Besteira. Ela nem sequer tivera mesmo UM PAI. É verdade, tiveram os bons momentos quando ela era menor, talvez ela visse esses bos momentos exatamente por ser criança, ou por vê-lo como um pai naquela época. o fato era que tudo havia mudado depois do divórcio. Ela não o reconhecia mais. Era como se tivessem trocado aquele pai por um gêmeo do mal. Será que durante todo esse tempo ele era assim e só ela não conseguia ver?
Mas enfim, voltando ao padrasto, o problema não era ciúmes ou qualquer outra coisa que pudesse ser facilmente explicada. Talvez o problema fosse com ela, e não com ele. Mas é que, desde a separação aquela menina tinha imaginado duas possibilidades de vida: viver sozinha com sua mãe e tentar se arrumar, sempre servindo de apoio uma para a outra, que nem nos filmes, ou ter UM PAI. Quando sua mãe assumiu o namoro com aquele homem, ela não se incomodou, afinal era a vida da sua mãe. Ela era adulta, solteira e podia fazer o que quisesse. Nos primeiros anos, tudo transcorria bem: ele não se metia na vida dela, ela não se metia na vida deles, De vez em quando ele até comprava umas coisas bem legais, com por exemplo seu primeiro computador. Não que aquela garota tivesse algum interesse, mas era legal receber presentes fora das datas comemorativas.
Parecia estar tudo bem, até que veio o casamento.A principio ela não ligou, afinal já moravam juntos, qual o problema? O problema é que aos poucos ele estava querendo se portar como seu pai, mas não no fato de lhe ensinar coisas novas, lhe acompanhar nos lugares e essas coisas (até por que ela nunca tinha dado essa liberdade à ele), ele queria saber o que ela fazia, pra onde ela ia, brigava com ela, proibia ela de fazer coisas (usando sua mãe, claro). Ela só queria entender o por quê de tudo aquilo. Quando sua irmã nasceu todos, inclusive ela, acharam que eles iam deixá-la em paz, mas a pressão só estava aumentando e atualmente sua única vontade era sumir.
Ela passou por eles na sala e só conseguiu fingir um meio sorriso em direção à sua mãe, ela o retribuiu com o mesmo entusiasmo, a garota dirigiu-se até a cozinha, aquilo fizera seu estômago embrulhar, ela fez seu café-da-manhã e sentou-se esperando que alguém se despedisse dela, apenas sua mãe o fez, era de se esperar, ela foi até a porta, fechou, sentou-se novamente e ficou olhando para aquele pão na sua frente. Eles não sabiam e se dependesse dela, eles nunca iriam saber dos seus medos, suas fragilidades, seus cortes… Eles nunca perceberiam que, no fim, tudo o que ela queria de fato, era ser amada. Ninguém entendia o porquê de suas lágrimas, o porquê de sua irritação, ao ver um casal ou uma família sorrindo, ou até mesmo um grupo de amigos fazendo besteiras. Ela não tinha, nem nunca teve, namorado, sua família era uma farsa e seus poucos AMIGOS podiam sair para qualquer lugar e costumavam chamá-la, mas a resposta de sua mãe na maioria das vezes era não. Lola era uma garota solitária, achavam que ela se portava daquele jeito porque ela “gostava" afinal, muitas vezes ela era muita alegre também. O problema é que eles só conseguiam ver seu sorriso, ninguém ainda tinha demonstrado a capacidade de ver seus olhos.
Ela só queria saber como seria ter um amor correspondido, uma amizade que lhe ouvisse mesmo naqueles dias em que a depressão tomava conta, uma família de verdade. Ela queria sentir o amor.




